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Giulia Bertolli

Seguindo

É de noite que a gente fica sozinho, que os fantasmas invadem a nossa cabeça e até mesmo o simples cair da chuva incomoda. É de noite que a ausência de um outro corpo pesa. De repente, você se vê procurando corpos estranhos, para suprir a necessidade de um alguém. Você investiga. Averigua as possibilidades. Procura, acha, curte, segue. "Me segue que eu te sigo de volta". E aí vamos nós nos seguindo para o fundo do poço que se tornou o contato humano. A internet aproxima e afasta. Ela te dá os ideias imaginários. Te dá pessoas, fotos, vídeos, posts. De curtidas em curtidas, vamos, silenciosamente, curtindo a solidão alheia. A resposta vem e segundos e a sua felicidade com ela também some em segundos. Corpos fantasmas que simplesmente existem, mas esqueceram de viver. Enquanto não há notificação a vida parece que não serve de nada. Do que vale um céu tão lindo se não são 18 horas para posta-lo? A gente deixa de ver, de sentir. É um mundo cinza, repleto de efeitos especiais. A gente satura a realidade a tal ponto que a imagem fica eternamente distorcida aos nossos olhos. Planejamos a foto, vemos se combina com as outras, montamos o cenário, o figuro, a iluminação. Passam-se horas na frente de aplicativos que buscam "melhorar" a imagem e tudo isso para que? Para agradar a opinião de outros que nem sequer tem algum significado na sua vida. Curte o espontâneo, quando, na verdade, a sua vida está imersa num mar de tédio. Aquilo não te representa então, por que insistir em tamanha exploração? Antes fosse se as fotos falassem, mas elas não dizem nada. É um silêncio que incomoda. É uma incapacidade de se conviver com a realidade que a internet tanto impõe. Mas acorde. Pare e reflita e admita para si mesmo que a sua vida não é tão legal assim. Ela poderia ser, sim, sem dúvidas, mas acontece que a gente fica tão preso à popularidade momentânea, que perdemos a capacidade de ver graça na vida. É uma realidade que não compensa o desgaste. Mas a gente não tenta mudar muito. No final, o que sempre importa é aquele maldito

"Seguindo de volta"

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