Giulia Bertolli


Off-line

Você já parou para se perguntar como é a vida das pessoas que passam por você? Quando eu era pequena eu adorava fazer isso. Ficava inventando milhões de histórias na minha cabeça, criando diálogos, imaginava as reações, como cada personagem criado iria lidar com as novas informações recebidas. Eu lembro que quando eu era criança eu ficava o dia inteiro trancada dentro do quarto brincando com as minhas bonecas. Eu falava tudo, dos diálogos mais bobos, aos mais complexos, ficava dias desenrolando a minha trama e, quando eu achava que essa já não tinha mais conteúdo, eu mudava de história como quem muda de canal na tv. Eu sempre me ocupei em criar. Para mim, ou para os outros, o importante era simplesmente inventar alguma coisa para ocupar a mente. Eu cresci com os meus pais sempre me estimulando a ser uma pessoa criativa, a sair do óbvio, do fácil, ser rápida, sem deixar de ser sensível. Eu não era aquelas crianças que ficavam horas na frente de uma tela, por mais que tivesse visto todos os filmes de Disney trilhões de vezes. Acho que era tudo uma questão de medida. Saber dosar entende? E onde está essa dose hoje em dia? Andando pelas ruas eu só vejo pescoços curvados diante de um tela de celular. Pessoas trombando e ignorando cada vez mais. Mas cadê os olhos que procuram? O peito aberto para novas oportunidades, novos encontros? Desde quando que viramos essas tartarugas encolhidas em nossos casulos? Que tempos são esses que eu não me dei conta? E não se trata de um discurso moralista não, até porque eu adoro as tecnologias e tudo que elas nos proporcionaram, mas é a questão da medida sabe? De até que ponto a gente pode usar elas sem ficarmos escravos a um maldito aparelho que só nos traz vazios. Porque são vários vazios. Conversas que se apagam quando um aplicativo dá defeito, uma conta que é hackeada e tem que se instalar tudo de novo, até as fotos são apagadas por causa de “falta de espaço para armazenamento”. Então, o que sobra? O que estamos ganhando com tudo isso? Não acho que seja o caso de contar as horas de uso do telefone, se ausentar das redes sociais e virar uma pessoa incomunicável. Não acho, e jamais faria isso. Mas tudo parte do princípio do uso. Vocês não acham triste ir a um restaurante e ver um casal no celular? Um de frente para o outro, sem falar, só escrevendo ou lendo, qualquer coisa que, com certeza, é bem menos interessante do que as possibilidades de assuntos que eles teriam. Ou várias crianças num parquinho, cheio de areia, e elas, ao invés de se sujarem, ficam sentadas do lado de fora brincando de “angry birds”. E quais são os assuntos? Será que daqui a alguns anos eu vou chegar ao ponto de perguntar para o meu sobrinho o que é um arco íris e ele for procurar no Google ao invés de inventar qualquer coisa louca que possa explicar essa constelação de cores que me encanta tanto? A tecnologia irrita um pouco. Então eu escrevo. Até hoje eu crio histórias. Ando nas ruas com os olhos atentos para qualquer situação possível. Eu fico prestando atenção nas pessoas que param, enquanto o mundo está num constante movimento. Na hora do almoço, no parque, na praia, no cinema, nas livrarias. Sozinhas ou acompanhadas. Velhas ou jovens, sempre foram as pessoas que me interessavam, as sem celulares, que vivem. Outro dia eu me peguei observando um senhorzinho que carregava um buquê de rosas pelas ruas do Jardim Botânico. Eu não sei para onde ele estava indo, nem para quem eram aquelas rosas, mas não é muito mais interessante esse não saber? Eu já criei a minha história, e eu gostaria muito de saber quais outras alguém criaria.

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