Mafê Probst


Nunca fui fã do escuro

Quando eu era bem pequena, pedia para o pai deixar a luz do corredor acessa, e assim ele fazia. Era uma garantia que nem eu, nem meu irmão, pulasse para a cama dele no meio da noite — e não, isso não funcionava sempre. Acho que dormi de luz acesa até os 8 anos. Menos ou mais? Não sei.

(...) Quando faltava luz a gente brincava com a vela. Fazia uns monstrinhos na parede e o pai assustava a gente com algumas histórias inventadas na hora. A mãe que sofria, porque a gente não ia ao banheiro sozinho no escuro. Era legal, mas dava medo. Eu não gosto muito do reflexo que a gente tem no espelho quando está sob luz de velas. Tenho sempre a sensação de quem tem mais alguém naquele reflexo meio obscuro.

(...) Um dia, mais velha, eu fui com uns amigos para a praia. Era meio frio e a praia estava vazia. A gente resolveu fazer um luau na areia e depois de algumas horas sem conseguir acender fogo, abrimos mão e deixamos para lá. Tinha uma casinha distante que emanava luz e bastava. Tempos depois, a casinha se apagou também.

Tudo ficou meio taciturno, mas tinha uma lua querendo crescer. Senti minhas pupilas dilatarem, não sei se para enxergar melhor ou se puro reflexo do medo infantil. Talvez um pouco das duas coisas.

Eu deitei na areia fofa, junto com todo o povo. A gente estava cabeça com cabeça olhando para cima. E no meio daquela imensidão escura, fiquei encantada com o tanto de estrelas que o céu pode abrigar... passou o medo, sobrou encantamento.

As estrelas têm medo de luz, concluí. A luz ofusca o mundo, ofusca a gente. Quantas pessoas você deixou de conhecer verdadeiramente por deixar a luz acesa tempo demais?

Agora, sou fã do escuro.

Outros Textos