Giulia Bertolli


Aos poucos vou me esquecendo de você

Disseram que deixar de falar era melhor. Disseram que eu ia esquecer, que você não mais me arrombaria os sonhos e que meus pensamentos te apagariam aos poucos. Disseram que era melhor não ligar, não mexer, não tocar. A ferida aberta iria cicatrizar, mas ela não fecha. Consome de dor o meu corpo, rasga a pele, queima a carne, jorra pus.
Falaram que não falar ia ser melhor. Mas minhas palavras sussurram baixinho o seu nome. Ele se prende na minha garganta e não quer sair, insiste em não sair, insiste em persistir. Você insiste em se fazer presente. É um longe perto, perto demais às vezes, tão perto que eu acabo confundindo a voz, o tato, o jeito.
Eu te confundo inteiro, esqueci de como te desembaralha. Você virou um quebra cabeça sem peças, sem pedaços, sem laços. Virou conversa apagada, daquelas que ninguém sabe como começa de novo. Eu esqueci de como te dizer “oi”, até porque isso nunca foi preciso. Nós éramos assunto e não tópicos, mas o tempo não deixou a gente se desenvolver.
Viramos tema de redação. Com início, meio e fim, com soluções para nossos problemas. Soluções utópicas e mal acabadas. Eu desaprendi a te escrever. E o tempo passa, os assuntos mudam, você vira passado e as histórias, as nossas histórias, começam a virar ultrapassadas.
Um dia eu não terei mais nada para dizer sobre você. Um dia você virará um “foi”, um “era”, um algo. Um dia você virará passado e então chegará o dia em que eu não saberei falar do quão forte foi a minha vontade de escrever sobre você. Um dia eu te deixarei para depois.

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