Textos

Giulia Bertolli

"O que te angustia?"

Diria que era uma pergunta leve para começar uma aula numa manhã de quinta feira às 11 horas da manhã. A professora foi perguntando de um em um e eu era uma das últimas na sala então, enquanto as pessoas falavam e eu deveria, supostamente, ouvir as respostas, eu fui pensando em tudo que me angustiava. Precisamente, naquele momento, me angustiava a semana de provas que eu ia ter que enfrentar, mas não era só isso, tinha tanta coisa a mais ... Então eu lembrei do tempo, do passar do tempo, dos atrasos que as pessoas insistiam em cometer. Lembrei das horas gastas no trânsito, dentro de um carro com o vidro escuro, sem que eu sequer pudesse olhar para o céu. Lembrei dos dias nublados que tapavam a lua e as estrelas, dos dias frios em que a gente esquece o casaco e é obrigada a se contorcer dentro do próprio corpo. Lembrei dos corpos que se afastavam uns dos outros sem grandes motivos reais. Lembrei de tudo que era real e das coisas que deixavam de ser. Pensei nas amizades, nos amores, nas famílias, nas lembranças. Pensei nos aniversários, na lista de convidados, pensei em cada rosto que continuava, mas também lembrei daqueles que faltavam por motivo algum, ou por vários motivos. Ia lembrando das coisas tristes, mas acabou que meu cérebro preferiu pensar também nas coisas felizes. Nas reuniões com os amigos, de todos juntos perto do fogão da cozinha esperando o ponto exato do brigadeiro ficar pronto, mesmo que ninguém soubesse qual era esse ponto exato. Lembrei de como tinha vezes que o brigadeiro ficava uma delicia, mas também daquelas em que ele ficava duro, melado, quando garrava no dente e não queria sair de jeito nenhum. Fui lembrando de como era muito mais divertido quando o brigadeiro não dava certo, só para ver a cara que todos faziam tentam fingir, estupidamente, que aquilo estava gostoso para não ofender quem estava mexendo a colher na panela. Eu sei que eu fugi de tema no meio do pensamento, mas cada lembrança ia me encadeando para lugares completamente diferentes. Eu me lembrei dos jantares que eu perdia em família por estar estudando, mas também me lembrei dos momentos em que todos se reuniam para ver a novela das nove. Lembrei da minha família, dos meus amigos, dos meus sonhos ou da falta de sono. Fiquei pensando nas noites em claro que eu passei só ouvindo o bater do relógio, esperando o tempo passar e os problemas se resolverem sozinhos dentro da minha cabeça para que eu pudesse dormir. Lembrei das conversas de madrugadas e como eu gostava que elas existissem, mesmo que hoje em dia elas não sejam tão frequentes. Lembrei de tudo que eu disse e até mesmo do silêncio que eu fiz. Lembrei de como o silêncio, para alguns, não valia mais que mil palavras, mas mesmo assim lembrei que eu silenciava, na esperança de que pudessem perceber que as minhas palavras não eram da boca para fora. Lembrei de como eu gostava de opostos e como eu não me importava em escutar, contanto que em alguma momento eu pudesse falar. Eu lembrei da lua, das estrelas, das árvores, do vento, do sereno. Nossa, eu lembrei de tanta coisa, boa ou ruim. Eu pensei na vida. Do medo que eu tenho do futuro, mas ao mesmo tempo na ânsia que eu tenho para vive-lo. Fiquei pensando no passado e agradecendo por ter passado por tudo aquilo só para ter o presente que eu tenho hoje eu dia. Me dei conta que eu passaria por todos os obstáculos novamente, sem medo, com coragem, sempre com a cabeça erguida na certeza de que, no final, tudo dá certo. Por fim, pensei na vida e como eu era muito grata por ter o prazer de viver a minha. Quando chegou a minha vez de responder, eu simplesmente disse “Me esquecer de aproveitar os pequenos e os grandes momentos da vida”.

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